Nunca gostei dessa expressão. Ao contrário do que muita gente pensa, ter um pezinho na cozinha não explica as habilidades culinárias de ninguém. Trata-se simplesmente de uma maneira um tanto preconceituosa de explicar a miscigenação brasileira. E por que a cozinha afinal? Lógico, era onde ficavam os negros (um quadro que diga-se de passagem não mudou tanto assim desde os tempos da escravidão). O senhor de engenho, danado que era, gostava de fazer incursões furtivas à cozinha na calada da noite. Ele tinha fome, é claro, no entanto a comida não estava exatamente na dispensa... Nove meses depois, nascia um rebento com um pé na cozinha e outro na sala de jantar.
A expressão ficou ainda mais célebre em 1994, quando o então candidato à presidência do Brasil Fernando Henrique Cardoso disse à Folha de S. Paulo que também tinha um pé na cozinha. Ele não queria dizer nada mais nada menos do que "sou mulato". Mas a referência me parece de mau gosto, pois carrega consigo a ideia de que lá é o lugar dos negros, de que eles hão de servir eternamente aos brancos. Não quero fingir que essa não é a realidade até hoje, e sim condenar a estigmatização implícita. Por que não simplesmente o pé na África?
Afastando essa expressão a pontapés, o blog coloca não apenas um, mas os dois pés na cozinha e traz de lá a interessante culinária senegalesa. Ela é a mais rica e variada do oeste africano, mas podemos destacar três pratos principais:
ThieboudienneDemorei umas duas semanas para conseguir pronunciar esse nome sem ler. É muito mais fácil comer. Como o Senegal é um país litorâneo, cuja principal atividade econômica é a pesca, o peixe é o grande protagonista da cozinha local. No thieboudienne, ele junta-se a uma espécie de arroz vermelho e a alguns legumes e verduras para compor o prato mais famoso (e gostoso) da região. O molho de tomate é o responsável pela cor do arroz, e os acompanhamentos podem variar: batata, aipim, beringela, cenoura, batata-doce, repolho, pimentão... Para o desconhecimento de até mesmo alguns senegaleses, existe também o tieboudienne de frango. Apesar de já bastante condimentados, os pratos podem ganhar ainda mais sabor com um molho de pimenta.
Esse prato dava para alimentar umas três pessoas
A versão frango em outro restaurante era mais humilde
Yassa poulet
Alguns posts atrás, falei do yassa para contar a história de que ele pode ter origem etimológica no "assado" do nosso querido idioma. Não à toa, é um prato típico da região de Casamance, no sul do país, onde se fala crioulo português. O frango acompanha um delicioso arroz com uma marinada de cebola, suco de limão e pimenta. A segunda melhor opção no Senegal. E assim como o thieboudienne faz a gentileza de abrir uma exceção para o frango, o yassa paga o favor de volta ao peixe. Viva a variação.
É tanta cebola que o frango fica até camufladoMaffé (ou maafe, mafé, maffe)Acho que o nome se encaixa perfeitamente ao prato. Afinal seu criador não pode ter sido alguém com boas intenções. O maffé é carne (de boi, cordeiro ou frango) com arroz e molho de amendoim. Pois é, amendoim. Eu tinha certeza de que não ia gostar, mas provei para poder contar a experiência. E realmente não é legal. A sensação é de estar comendo uma paçoca molhada. Mas, enfim, há quem goste! E ele estará sempre lá à espera do próximo turista curioso.
Apesar do gosto, comi tudo, afinal as criancinhas desnutridas da África de quem tanto ouvi falar quando pequeno estavam logo ali
Outras opções
A culinária do Senegal sofreu, é claro, uma forte influência da francesa. Você não só encontra muitas pâtisseries (confeitaria) em Dakar, como restaurantes especializados na cozinha da terra de Napoleão. Eu estava hospedado num hotel cujo dono era belga e, como ficava longe do centro, acabei jantando lá muitas vezes. Comida típica da Bélgica com alguns pratos da Itália também. E, assim como no Marrocos, é claro que você pode sempre encontrar um bom frango assado com batata-frita.
Acho que o Senegal é o primeiro país que eu conheço onde não existe um McDonald's! Bem, pelo menos acho que não tem, afinal em Dakar não vi nem sinal. Mas há lanchonetes, pizzarias e dibeteries.
Débiter em francês significa picar, cortar em pedaços. Portanto, as dibeteries vendem sanduíches com carne picada, molho de pimenta, mostarda, ketchup e batata-frita. Tudo dentro! É o podrão do Senegal! E põe podrão nisso.
Esse peixe chama-se thiouf no Senegal. A tradução que encontrei para ele em português é garoupa. Maravilhoso
Não dá para ver, mas isso é um brochette, nosso famoso espetinho. Muito comum no Senegal, influência francesa, ele pode ser de carne, frango ou peixe
Um dos melhores pratos da viagem: batata rostie com frango empanado ao molho de laranja
Não, não estamos em Paris. É a pâtisserie francesa fazendo escola
E voilà a dibiterie. O cara faz o sanduba na hora e enrola no jornal
Para fechar, os sucos. Os de trás são feitos de uma flor chamada no Senegal de bissap (hibisco em português) e têm um gosto diferente de tudo que já provei. Pode-se dizer que é bom. O verde é de ditakh, um fruto cujo sabor lembra o da banana, bem docinho.
Fotos que pesquei na internet para mostrar o bissap e o ditakh