quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A organizada confusão

No meu primeiro dia em Dakar, fiz um pequeno tour pelo centro acompanhado de Samba, meu braço-direito para os momentos difíceis. E convenhamos que passear pelas ruas mais movimentadas de uma capital africana de mais de 2 milhões de habitantes não é das tarefas mais fáceis quando todos sabem que você é um turista. Na época, escrevi as seguintes frases:

"A cidade é caótica, tem muita gente andando de um lado para o outro e todas as ruas parecem iguais. (...) Bastante assustador a princípio, não quero nem imaginar como seria estar sozinho no meio daquela confusão."

Três semanas depois, um pouco mais calejado, decidi que era hora de enfrentar esse desafio sozinho. Encarar não apenas o centro, mas os apinhados e barulhentos mercados de Dakar. Não poderia dizer que fui ao Senegal se não tivesse me jogado em uma dessas feiras onde se vende tudo o que se possa imaginar.

O comércio no Senegal, aliás, é uma atração à parte. Digamos simplesmente que o camelô é a regra e a loja é a exceção. E se você acha que os vendedores de sinal do Rio de Janeiro primam pela criatividade, precisa ir a Dakar para descobrir que as ruas são um verdadeiro supermercado a céu aberto. Basta pegar o carro, dar uma volta pelo centro e descer o vidro da janela. É a montanha indo aos seguidores de Maomé.

Na minha tarde de aventura pelo centro nervoso da capital senegalesa, anotei todos os produtos que vi serem vendidos pelos ambulantes:

cabides, tapetes, cartões de celular, sandálias, vassouras, bolsas, jornais, óculos, ternos, chapéus, toalhas, casacos, meias, secadores, pilhas, jogos de tabuleiro, lenços, cintos, ovos, lanternas, cachecóis, canetas, relógios, canecas, calças, colchões...

Colchões! Aí eu desisti de continuar escrevendo. Depois de ver um ambulante vendendo colchões, me dei conta de que a lista não acabaria nunca, que a criatividade dos locais era difícil demais de se acompanhar.

Mas nos mercados é diferente, é você quem corre atrás. E é preciso saber onde se vende aquilo que você procura, afinal cada mercado é especializado em uma determinada gama de produtos. Para ajudar quem quiser um dia fazer umas comprinhas em Dakar, deixo uma versão resumida do apanhado de um site senegalês:

1. O maior mercado: Sandanga
2. O mais turístico: Kermel
3. O mais típico: Mercado da estação de trem
4. O mais autêntico: Tilène
5. O mais psicodélico: HLM
6. O mais eclético: Mercado do porto
7. O mais exótico: Casamance
8. O mais simpático: Castors

E esses não são os únicos! Eu encarei o maior de todos, o Sandanga, e saí vivo. Mal fui importunado para falar a verdade, embora admita que não tivesse a intenção de comprar nada e assim procedi. Fui embora me perguntando por que eu tinha ficado tão assustado na primeira vez. Ali eu vi que não só eu fazia parte do caos, como o caos já fazia parte de mim.

As ruas do centro:




O mercado Sandanga:







Os dois únicos lugares em que comprei algo:




E para completar, um vídeo bem curto do caos urbano

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Eles vêm, eles se vão

"Somos todos viajantes pelas agruras do mundo, e o melhor que podemos achar em nossas viagens é um amigo honesto."

Robert Louis Stevenson
(escritor escocês de livros de viagem, famoso pelas obras "A Ilha do Tesouro" e "O Médico e o Monstro")

Da esquerda para a direita: EUA, EUA, Inglaterra, EUA, Cingapura, EUA

EUA e Dinamarca

Zator, meu professor de francês

França e Itália

E o famoso Samba, figuraça que me levou à luta senegalesa

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Um pezinho na cozinha

Nunca gostei dessa expressão. Ao contrário do que muita gente pensa, ter um pezinho na cozinha não explica as habilidades culinárias de ninguém. Trata-se simplesmente de uma maneira um tanto preconceituosa de explicar a miscigenação brasileira. E por que a cozinha afinal? Lógico, era onde ficavam os negros (um quadro que diga-se de passagem não mudou tanto assim desde os tempos da escravidão). O senhor de engenho, danado que era, gostava de fazer incursões furtivas à cozinha na calada da noite. Ele tinha fome, é claro, no entanto a comida não estava exatamente na dispensa... Nove meses depois, nascia um rebento com um pé na cozinha e outro na sala de jantar.

A expressão ficou ainda mais célebre em 1994, quando o então candidato à presidência do Brasil Fernando Henrique Cardoso disse à Folha de S. Paulo que também tinha um pé na cozinha. Ele não queria dizer nada mais nada menos do que "sou mulato". Mas a referência me parece de mau gosto, pois carrega consigo a ideia de que lá é o lugar dos negros, de que eles hão de servir eternamente aos brancos. Não quero fingir que essa não é a realidade até hoje, e sim condenar a estigmatização implícita. Por que não simplesmente o pé na África?

Afastando essa expressão a pontapés, o blog coloca não apenas um, mas os dois pés na cozinha e traz de lá a interessante culinária senegalesa. Ela é a mais rica e variada do oeste africano, mas podemos destacar três pratos principais:

Thieboudienne

Demorei umas duas semanas para conseguir pronunciar esse nome sem ler. É muito mais fácil comer. Como o Senegal é um país litorâneo, cuja principal atividade econômica é a pesca, o peixe é o grande protagonista da cozinha local. No thieboudienne, ele junta-se a uma espécie de arroz vermelho e a alguns legumes e verduras para compor o prato mais famoso (e gostoso) da região. O molho de tomate é o responsável pela cor do arroz, e os acompanhamentos podem variar: batata, aipim, beringela, cenoura, batata-doce, repolho, pimentão... Para o desconhecimento de até mesmo alguns senegaleses, existe também o tieboudienne de frango. Apesar de já bastante condimentados, os pratos podem ganhar ainda mais sabor com um molho de pimenta.

Esse prato dava para alimentar umas três pessoas

A versão frango em outro restaurante era mais humilde

Yassa poulet

Alguns posts atrás, falei do yassa para contar a história de que ele pode ter origem etimológica no "assado" do nosso querido idioma. Não à toa, é um prato típico da região de Casamance, no sul do país, onde se fala crioulo português. O frango acompanha um delicioso arroz com uma marinada de cebola, suco de limão e pimenta. A segunda melhor opção no Senegal. E assim como o thieboudienne faz a gentileza de abrir uma exceção para o frango, o yassa paga o favor de volta ao peixe. Viva a variação.

É tanta cebola que o frango fica até camuflado

Maffé (ou maafe, mafé, maffe)

Acho que o nome se encaixa perfeitamente ao prato. Afinal seu criador não pode ter sido alguém com boas intenções. O maffé é carne (de boi, cordeiro ou frango) com arroz e molho de amendoim. Pois é, amendoim. Eu tinha certeza de que não ia gostar, mas provei para poder contar a experiência. E realmente não é legal. A sensação é de estar comendo uma paçoca molhada. Mas, enfim, há quem goste! E ele estará sempre lá à espera do próximo turista curioso.

Apesar do gosto, comi tudo, afinal as criancinhas desnutridas da África de quem tanto ouvi falar quando pequeno estavam logo ali

Outras opções

A culinária do Senegal sofreu, é claro, uma forte influência da francesa. Você não só encontra muitas pâtisseries (confeitaria) em Dakar, como restaurantes especializados na cozinha da terra de Napoleão. Eu estava hospedado num hotel cujo dono era belga e, como ficava longe do centro, acabei jantando lá muitas vezes. Comida típica da Bélgica com alguns pratos da Itália também. E, assim como no Marrocos, é claro que você pode sempre encontrar um bom frango assado com batata-frita.

Acho que o Senegal é o primeiro país que eu conheço onde não existe um McDonald's! Bem, pelo menos acho que não tem, afinal em Dakar não vi nem sinal. Mas há lanchonetes, pizzarias e dibeteries. Débiter em francês significa picar, cortar em pedaços. Portanto, as dibeteries vendem sanduíches com carne picada, molho de pimenta, mostarda, ketchup e batata-frita. Tudo dentro! É o podrão do Senegal! E põe podrão nisso.

Esse peixe chama-se thiouf no Senegal. A tradução que encontrei para ele em português é garoupa. Maravilhoso

Não dá para ver, mas isso é um brochette, nosso famoso espetinho. Muito comum no Senegal, influência francesa, ele pode ser de carne, frango ou peixe

Um dos melhores pratos da viagem: batata rostie com frango empanado ao molho de laranja

Não, não estamos em Paris. É a pâtisserie francesa fazendo escola

E voilà a dibiterie. O cara faz o sanduba na hora e enrola no jornal

Para fechar, os sucos. Os de trás são feitos de uma flor chamada no Senegal de bissap (hibisco em português) e têm um gosto diferente de tudo que já provei. Pode-se dizer que é bom. O verde é de ditakh, um fruto cujo sabor lembra o da banana, bem docinho.

Fotos que pesquei na internet para mostrar o bissap e o ditakh