Mas, vejam só, estou de volta e não por acaso! Hoje fiz a parte escrita do Dalf (Diplôme approfondi de langue française), o exame ao qual dediquei todos os dias que 2010 já conheceu até aqui. Foram 4 horas para fazer valer todo o aprendizado adquirido. Inevitável pensar no dia em que pus os pés em Dakar com mais dúvidas do que certezas. Vi que, aos poucos, a balança começou a pender para o outro lado, mas não sem alguns pequenos sustos. Lembrei do caos das ruas senegalesas, dos minutos em que achei que tinha perdido o passaporte na véspera de deixar a África (quase ninguém sabe disso), da família sovina e antipática que me hospedou nos primeiros dias em Paris e, talvez a maior preocupação, do vermelho na conta bancária!
Mas não só isso. Voltei a 2006, mais exatamente ao dia em que decidi me matricular na Aliança Francesa para começar do zero o aprendizado de uma nova língua. Quem já frequentou uma sala de curso de idiomas sabe do que estou falando. Isso dá trabalho pra caramba! E para uma pessoa como eu, avessa ao termo "longo prazo", ávida pelo imediato, a tarefa é ainda mais hercúlea e angustiante.
No meio do caminho, consegui muito mais do que simplesmente fazer bico e falar com a sílaba tônica no final da palavra. Ganhei uma namorada, um novo trabalho, algumas linhas a mais de currículo e muita cultura. Entendi melhor algumas coisas, expandi horizontes, me tornei francófilo e descobri uma nova maneira de enxergar o mundo. Perdi o medo de uma língua aparentemente impossível e de visitar Paris, onde, rezava a lenda, ninguém falava inglês e te tratavam mal se você assim procedesse.
O que então eu ainda procurava diante daquelas páginas cheias de perguntas e palavras esquisitas na manhã do grande dia? No momento em que devia estar pronto para dar respostas, eu me questionava. Por quê, se sabia que todo aquele percurso já havia valido a pena, já havia dado frutos? Eu ainda estava insatisfeito. E a razão ficou evidente antes mesmo de a caneta começar seu trabalho. Entre o dia em que cheguei para minha primeira aula de francês, quando conheci minha futura namorada (agora ex) e comecei a ganhar mais cultura, me preparar para um novo trabalho, compreender melhor o mundo, derrubar fronteiras e esvaziar o saco de medo, e o dia em que decidi fazer as malas para passar alguns meses longe de casa, houve um momento em que algo transformou o Rio e até mesmo o Brasil em lugares pequenos demais. E eu cismei que devia sair.
Era por isso que estava ali, com outras 60 pessoas, pronto para provar meu conhecimento. Não para dizer "papai, mamãe, fui para a Europa e aprendi alguma coisa", nem para colocar lá no currículo "francês avançado, Dalf C1" e impressionar um futuro chefe. Eu precisava daquele diploma para poder seguir meu rumo. Ele era como um visto para uma nova vida a 9162km de distância. O primeiro, não o último passo da viagem.
Virei a prova e comecei a ler as questões. Quatro horas depois, as páginas estavam todas preenchidas. A sensação de alívio veio acompanhada de um bom pressentimento. O passaporte será carimbado em breve.
