sábado, 30 de janeiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Depois do banho marroquino, o banho senegalês
Todo viajante que costuma se aventurar pelo Brasil e pelo mundo com orçamento apertado convive com uma pergunta sempre que chega ao local de hospedagem: "Será que vai ter água quente?" Não bastam promessas em sites, garantia dos amigos, certificado na parede nem mesmo conversa com outros hóspedes. A gente só fica traquilo de verdade quando coloca a mão na água quentinha. E às vezes nem isso, pois, como diz a sabedoria popular, alegria de pobre dura pouco e você pode acabar entrando numa fria no meio do ensaboamento.
No Senegal, o que termina antes é a própria pergunta: "Será que vai ter água?" Lembre-se de que estamos falando de um país que está localizado logo abaixo do Saara, o maior e mais quente deserto do mundo. Assim, nem mesmo um bom hotel está livre de um chuveiro seco. Quando você acha que vai tomar um banho quentinho, acaba recebendo um balde de água fria. Mesmo.
Certamente o banho de balde não foi uma novidade, tenho a lembrança remota de alguma casa de campo na qual passei por essa experiência, ou talvez me esteja vindo o eco de um canto obscuro da memória dos dias em que eu era apenas um bebê. Também não foi a primeira vez que tive problemas com banho em terras estrangeiras, como hão de lembrar os "amigos" sobre uma certa situação constrangedora no Marrocos (putz, taí minha lembrança do balde!).
Desta vez, pelo menos, eu estava sozinho. Mas foi igualmente inusitado. Ao final, só conseguia pensar na quantidade de água que havia economizado naquele banho. Nem mesmo o balde todo tinha sido necessário. Apesar da situação incômoda, me senti bem por não ter jogado os escassos recursos do Senegal literalmente pelo ralo. Em tempos de ecologicamente correto, isso sim deveria se chamar ecoturismo.
No Senegal, o que termina antes é a própria pergunta: "Será que vai ter água?" Lembre-se de que estamos falando de um país que está localizado logo abaixo do Saara, o maior e mais quente deserto do mundo. Assim, nem mesmo um bom hotel está livre de um chuveiro seco. Quando você acha que vai tomar um banho quentinho, acaba recebendo um balde de água fria. Mesmo.
Certamente o banho de balde não foi uma novidade, tenho a lembrança remota de alguma casa de campo na qual passei por essa experiência, ou talvez me esteja vindo o eco de um canto obscuro da memória dos dias em que eu era apenas um bebê. Também não foi a primeira vez que tive problemas com banho em terras estrangeiras, como hão de lembrar os "amigos" sobre uma certa situação constrangedora no Marrocos (putz, taí minha lembrança do balde!).
Desta vez, pelo menos, eu estava sozinho. Mas foi igualmente inusitado. Ao final, só conseguia pensar na quantidade de água que havia economizado naquele banho. Nem mesmo o balde todo tinha sido necessário. Apesar da situação incômoda, me senti bem por não ter jogado os escassos recursos do Senegal literalmente pelo ralo. Em tempos de ecologicamente correto, isso sim deveria se chamar ecoturismo.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
África clichê
Quando se pensa em turismo na África a primeira imagem que vem à cabeça é a de um safári, certo? Pois no Senegal isso também existe (não para caçar!), e como já assumi sem traumas minha condição de turista, resolvi colocar a cereja no bolo.
O país tem seis parques nacionais e várias áreas de proteção ambiental. O problema é que praticamente nenhum deles fica perto de Dakar. Se você quiser ver os dois grandes protagonistas da savana africana, o leão e o elefante, por exemplo, terá que percorrer 650km continente adentro. Essa é a distância até o Parque Nacional de Niokolo-Koba, o maior do Senegal, considerado Patrimônio Mundial da Unesco.
Agora se você tem uma queda por pássaros, a melhor opção é o Parque Nacional dos Pássaros do Djoudj, a parcos 370km ao norte de Dakar, quase na fronteira com a Mauritânia. Quem tiver o tempo e a disposição vai encontrar cerca de três milhões de aves de 350 espécies, fazendo do lugar o terceiro principal santuário de pássaros do mundo.
Mas como meu caso era diferente, sobrou a simpática Reserva de Bandia, que não é nenhuma Brastemp, mas dá para o gasto (e o mais importante, fica a só 50km da capital!). Criada há apenas 13 anos, a reserva de 1.500 hectares (1 hectare equivale a 1 campo de futebol) abriga os outros amigos do Rei Leão, como rinocerontes, girafas, crocodilos, hienas, antílopes, avestruzes, javalis, búfalos, macacos e tartarugas. Além disso, segundo o guia, tem a maior concentração de baobás do Senegal.
Como cheguei ao meio-dia e o sol estava um pouco inclemente, a maioria dos animais estava mesmo era atrás de uma sombrinha, o que dificultava a localização deles e também as fotos. Dá para sair do carro e tentar chegar mais perto, mas eles costumam fugir de você (e você talvez tenha que fugir do rinoceronte!). No mais, é tudo muito tranquilo e silencioso. Até demais.
Perguntei então ao guia se já não havia tido algum caso de acidente com turistas e ele disse que não (ou achou melhor dizê-lo). Quis então saber se era sempre aquela paz, se os animais não brigavam nunca, já que não há predadores pois são todos herbívoros. Aí ele contou que os antílopes se enfrentavam pela posse das fêmeas e me mostrou um vídeo no celular com uma feroz batalha chifre a chifre, o que me fez lembrar a luta senegalesa. Era aquilo que eu queria presenciar! Mas pelo visto todos estavam casados e comportados. Na Reserva de Bandia, pular a cerca pode ser perigoso demais. Ela é eletrificada.
Só consegui ver um dos dois casais que têm na reserva
Essa é a verdadeira distância dele para o carro
Eis o filho do Pumba, o javali amigo do Rei Leão
E essa foi a última imagem do avestruz...
Esse antílope não tinha nenhuma fêmea para lhe fazer companhia, enquanto um outro que eu vi estava cercado por 15!
Será que os chifres têm alguma relação com essa constante troca de parceiras?
Um outro tipo de antílope, de origem sul-africana
Bonitinha ela, parece até que estava rindo
Acho que nunca tinha visto uma girafa sentada
O passarinho parece um "limpa-remela", mas na verdade está só se alimentando de carrapatos e outros parasitas
Chatos esses búfalos, nem para arranjar uma confusão com os rinocerontes
O país tem seis parques nacionais e várias áreas de proteção ambiental. O problema é que praticamente nenhum deles fica perto de Dakar. Se você quiser ver os dois grandes protagonistas da savana africana, o leão e o elefante, por exemplo, terá que percorrer 650km continente adentro. Essa é a distância até o Parque Nacional de Niokolo-Koba, o maior do Senegal, considerado Patrimônio Mundial da Unesco.
Agora se você tem uma queda por pássaros, a melhor opção é o Parque Nacional dos Pássaros do Djoudj, a parcos 370km ao norte de Dakar, quase na fronteira com a Mauritânia. Quem tiver o tempo e a disposição vai encontrar cerca de três milhões de aves de 350 espécies, fazendo do lugar o terceiro principal santuário de pássaros do mundo.
Mas como meu caso era diferente, sobrou a simpática Reserva de Bandia, que não é nenhuma Brastemp, mas dá para o gasto (e o mais importante, fica a só 50km da capital!). Criada há apenas 13 anos, a reserva de 1.500 hectares (1 hectare equivale a 1 campo de futebol) abriga os outros amigos do Rei Leão, como rinocerontes, girafas, crocodilos, hienas, antílopes, avestruzes, javalis, búfalos, macacos e tartarugas. Além disso, segundo o guia, tem a maior concentração de baobás do Senegal.
Como cheguei ao meio-dia e o sol estava um pouco inclemente, a maioria dos animais estava mesmo era atrás de uma sombrinha, o que dificultava a localização deles e também as fotos. Dá para sair do carro e tentar chegar mais perto, mas eles costumam fugir de você (e você talvez tenha que fugir do rinoceronte!). No mais, é tudo muito tranquilo e silencioso. Até demais.
Perguntei então ao guia se já não havia tido algum caso de acidente com turistas e ele disse que não (ou achou melhor dizê-lo). Quis então saber se era sempre aquela paz, se os animais não brigavam nunca, já que não há predadores pois são todos herbívoros. Aí ele contou que os antílopes se enfrentavam pela posse das fêmeas e me mostrou um vídeo no celular com uma feroz batalha chifre a chifre, o que me fez lembrar a luta senegalesa. Era aquilo que eu queria presenciar! Mas pelo visto todos estavam casados e comportados. Na Reserva de Bandia, pular a cerca pode ser perigoso demais. Ela é eletrificada.
A hiena é carnívora e por isso fica numa área separada. Droga!
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
"Venha ao sucesso"
Na religião islâmica, existe uma pessoa encarregada de conclamar os fiéis às cinco orações diárias obrigatórias. Ela trabalha na mesquita e se chama muezzin. Até aí tudo bem. O curioso está na maneira como ele faz a famosa "chamada à oração": em alto e bom som. Toda mesquita que não seja muito pequena tem um minarete (ou alguns), que nada mais é do que a torre. Lá no alto, há sempre um bom sistema de alto-falantes, que serve para o muezzin avisar ao fiel mais distante que é hora de se curvar a Alá.
Mas existe toda uma cantoria no chamado, às vezes chega até a parecer uma lamúria. O muezzin emposta a voz e solta do fundo do peito, como um berrante: "Allaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah". Ouvir um só já é interessante, mas quando você está numa cidade cheia de mesquitas, minaretes e muezzins, a chamada à oração pode parecer o anúncio do Juízo Final ou um aviso de que o meteoro está chegando e que todos devem evacuar o local imediatamente.
Isso porque nunca entendia uma palavra do que é falado. Mentira, entendia o "Alá". Não importa em que país você esteja, o muezzin sempre fala em árabe. E desde a minha viagem ao Marrocos, em 2009, me perguntava o que afinal ele dizia para convencer o fiel a parar tudo e fazer sua reverência. Hoje descobri!
ALLAH O AKBAR (Deus é grande)
ALLAH O AKBAR (Deus é grande)
ACHAADOU LA ILLAH A ILA LLAH (Eu testemunho que só há um Deus)
ACHAADOU ANA MOHAMAD RASSULULAH (eu testemunho que Maomé é Seu enviado)
HAYA ARLA SALA (Venha à oração)
HAYA ARLA SALA (Venha à oração)
HAYA ARLA L'FALEH (Venha ao sucesso)
HAYA ARLA L'FALEH (Venha ao sucesso)
"Venha ao sucesso" é muito bom! Grande jogada de marketing num tempo em que isso nem existia! É uma ótima maneira de atrair o fiel, parece título de livro de auto-ajuda ou aquele cartaz colado no poste dizendo "trago a pessoa amada em três dias". Quem não quer ir ao sucesso? Mas o sucesso nesse caso não é fácil de se alcançar, ele exige que você acorde às 5h da manhã. Nesse horário, o muezzin precisa de mais lábia para tirar o fiel da cama e aí diz uma outra frase que faz toda a diferença para eles.
AS-SALATU HAYRU MIN AN-NAUM (a oração é melhor do que o sono)
Sensacional! Nada como um bom e velho sentimento de culpa! E o povo vai, é a maneira deles de começar o dia. Admirável. Acho que eu nunca poderia ser um bom muçulmano. Tem frases com as quais simplesmente não dá para concordar.
**********************************************************
Não registrei a chamada à oração no Senegal porque já o tinha feito no Marrocos. Portanto, quem ficou curioso de saber como é esse hábito tão peculiar pode conferir no meu vídeo abaixo, gravado no vilarejo de Chefchaouen.
Mas existe toda uma cantoria no chamado, às vezes chega até a parecer uma lamúria. O muezzin emposta a voz e solta do fundo do peito, como um berrante: "Allaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah". Ouvir um só já é interessante, mas quando você está numa cidade cheia de mesquitas, minaretes e muezzins, a chamada à oração pode parecer o anúncio do Juízo Final ou um aviso de que o meteoro está chegando e que todos devem evacuar o local imediatamente.
Isso porque nunca entendia uma palavra do que é falado. Mentira, entendia o "Alá". Não importa em que país você esteja, o muezzin sempre fala em árabe. E desde a minha viagem ao Marrocos, em 2009, me perguntava o que afinal ele dizia para convencer o fiel a parar tudo e fazer sua reverência. Hoje descobri!
ALLAH O AKBAR (Deus é grande)
ALLAH O AKBAR (Deus é grande)
ACHAADOU LA ILLAH A ILA LLAH (Eu testemunho que só há um Deus)
ACHAADOU ANA MOHAMAD RASSULULAH (eu testemunho que Maomé é Seu enviado)
HAYA ARLA SALA (Venha à oração)
HAYA ARLA SALA (Venha à oração)
HAYA ARLA L'FALEH (Venha ao sucesso)
HAYA ARLA L'FALEH (Venha ao sucesso)
"Venha ao sucesso" é muito bom! Grande jogada de marketing num tempo em que isso nem existia! É uma ótima maneira de atrair o fiel, parece título de livro de auto-ajuda ou aquele cartaz colado no poste dizendo "trago a pessoa amada em três dias". Quem não quer ir ao sucesso? Mas o sucesso nesse caso não é fácil de se alcançar, ele exige que você acorde às 5h da manhã. Nesse horário, o muezzin precisa de mais lábia para tirar o fiel da cama e aí diz uma outra frase que faz toda a diferença para eles.
AS-SALATU HAYRU MIN AN-NAUM (a oração é melhor do que o sono)
Sensacional! Nada como um bom e velho sentimento de culpa! E o povo vai, é a maneira deles de começar o dia. Admirável. Acho que eu nunca poderia ser um bom muçulmano. Tem frases com as quais simplesmente não dá para concordar.
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Não registrei a chamada à oração no Senegal porque já o tinha feito no Marrocos. Portanto, quem ficou curioso de saber como é esse hábito tão peculiar pode conferir no meu vídeo abaixo, gravado no vilarejo de Chefchaouen.
domingo, 24 de janeiro de 2010
50 posts e um presente
Em comemoração ao 50° post do blog, uma notícia bacana. Fui citado numa matéria do site O Livreiro, a comunidade social dos amantes dos livros. É um projeto bem legal tocado por uma equipe do Infoglobo em parceria com a Livraria Cultura. Dá para montar sua própria estante virtual com os livros que você já leu, os que está lendo e os que quer ler, além de trocar ideias com os outros leitores, conferir notícias sobre o universo literário, debater textos, participar de comunidades, concursos... enfim! Um paraíso para quem gosta de ler.
Fico orgulhoso de ter sido escolhido para ilustrar uma matéria sobre blogs de brasileiros pelo mundo. Tem até foto minha do post sobre a luta senegalesa. Os blogs citados também valem uma conferida, tem gente de tudo quanto é canto do planeta. Isso me deu vontade de juntar num só espaço esses e todos os outros bons blogueiros brasileiros que relatam diversos países com uma bagagem cultural que é só nossa. Brasileiro escrevendo para brasileiro. Isso faz toda a diferença.
Deixo mais um agradecimento à equipe do site e votos de sucesso na admirável empreitada de tentar fazer o Brasil ler mais. E rumo ao centésimo post!
Fico orgulhoso de ter sido escolhido para ilustrar uma matéria sobre blogs de brasileiros pelo mundo. Tem até foto minha do post sobre a luta senegalesa. Os blogs citados também valem uma conferida, tem gente de tudo quanto é canto do planeta. Isso me deu vontade de juntar num só espaço esses e todos os outros bons blogueiros brasileiros que relatam diversos países com uma bagagem cultural que é só nossa. Brasileiro escrevendo para brasileiro. Isso faz toda a diferença.
Deixo mais um agradecimento à equipe do site e votos de sucesso na admirável empreitada de tentar fazer o Brasil ler mais. E rumo ao centésimo post!
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O lugar mais lindo guarda as piores histórias
Quando alguém tenta me passar a perna ou simplesmente quando perguntam o que estou fazendo no Senegal, faço questão de deixar claro que não sou um turista. Dizer que “vim para estudar” é muito mais romântico e inusitado do que falar que estou passeando, sem contar que costuma prolongar um pouco mais a conversa, afinal meu interlocutor não se contém e desanda a fazer perguntas sobre o motivo de minha escolha.
Mas, verdade seja dita, fora da sala de aula não sou nada mais, nada menos, do que um simples turista. E apesar de um turista enrustido, faço tudo direitinho como manda o manual. Tiro fotos da população local, compro souvenirs e, é claro, visito os pontos turísticos. O plural, no caso de Dakar, seja quase a ser um exagero (se não uma condescendência), pois a cidade não tem lá grandes atrações para gringo ver. Talvez por isso o presidente tenha resolvido fazer a famigerada estátua de 50 metros de altura.
Mas enquanto o monumento não é aberto à visitação, o principal local de interesse turístico do país é a Ilha de Gorée. Distante apenas 20 minutos de Dakar via ferry, ela é destino obrigatório para quem vai ao Senegal pela primeira vez. Em 1978, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco e, não à toa, é o lugar mais bonito e agradável da capital.
Mas, verdade seja dita, fora da sala de aula não sou nada mais, nada menos, do que um simples turista. E apesar de um turista enrustido, faço tudo direitinho como manda o manual. Tiro fotos da população local, compro souvenirs e, é claro, visito os pontos turísticos. O plural, no caso de Dakar, seja quase a ser um exagero (se não uma condescendência), pois a cidade não tem lá grandes atrações para gringo ver. Talvez por isso o presidente tenha resolvido fazer a famigerada estátua de 50 metros de altura.
Mas enquanto o monumento não é aberto à visitação, o principal local de interesse turístico do país é a Ilha de Gorée. Distante apenas 20 minutos de Dakar via ferry, ela é destino obrigatório para quem vai ao Senegal pela primeira vez. Em 1978, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco e, não à toa, é o lugar mais bonito e agradável da capital.
A ilha é uma mistura de Paraty com Havana. As casas coloridas, o som de passos rasgando o silêncio e o caminhar lento de quem leva a vida algumas marchas abaixo da nossa lembram a cidade do sul fluminense, enquanto os prédios com arcos e o ar de decadência que emana das paredes descascadas remetem à capital cubana. No entanto, o simpático cenário pitoresco foi outrora testemunha de um dos capítulos mais vergonhosos da humanidade.
Descoberta em 1444 pelos portugueses, a ilha, que não chega a ter nem 1km de extensão, foi disputada por muitas coroas da Europa, passando ao longo do tempo pelas mãos de franceses, holandeses e ingleses (que travavam guerras e se revezavam constantemente no poder). A importância desse lugar para a história está ligada à memória do sofrimento causado pelos séculos de escravidão. Gorée serviu de ponto de partida para a "viagem sem regresso" de muitos homens e mulheres africanos capturados para trabalhar nas colônias europeias do Novo Mundo.
Ainda hoje há controvérsia sobre o número de escravos que partiram da ilha, mas existe uma estimativa do contingente total de toda a África. Foram cerca de 12 a 15 milhões de negros que deixaram o solo de onde nasceram para padecer nas plantações de açúcar, algodão, tabaco, café, e nas minas do outro lado do Atlântico. Não é difícil imaginar por que o continente que perdeu seus homens mais fortes e suas mulheres mais férteis reúne os países mais atrasados do mundo.
Quem precisa ver para crer pode ir muito além em Gorée. A ilha abriga uma casa que guarda melhor do que qualquer outra a lembrança dos dias de tortura, e onde a história pode de fato ser tocada. Construída em 1786, a Casa dos Escravos (Maison des Esclaves) era o lugar onde as pessoas capturadas ficavam enclausuradas em diferentes celas, de acordo com a idade e o sexo. Existia inclusive uma delas reservada às crianças. Caminhando pelo local, absorvendo o ar abafado e pisando no chão de areia, é impossível não imaginar o quanto devia ser sofrido ficar num daqueles buracos escuros e úmidos em pleno verão senegalês, comendo menos do que o mínimo necessário e sabendo que o futuro não haveria de ser melhor. E tudo aquilo era considerado normal há 200 anos.
Em cima, a casa dos comerciantes; embaixo, as celas dos escravos. Ao fundo, A PORTA
A porta pela qual eles passavam rumo às Américas
Até hoje o cenário é meio sombrio...
Apesar de ser o principal local de visitação, a Casa dos Escravos não é o único museu da ilha. Existem ainda o Museu da Mulher, o Museu Marítimo e o Museu Histórico, todos a 500 francos (cerca de R$ 2). A companhia de um guia fica a critério do visitante. Certamente eles têm informações interessantes para enriquecer o passeio, mas eu só queria caminhar tranquilamente e tirar as fotos no meu próprio ritmo, sem ter que seguir alguém. Bastam de quatro a cinco horas para conhecer tudo e almoçar.
O único incoveniente da ilha é o mesmo que aflige todo ponto turístico de país subdesenvolvido: o assédio incansável dos vendedores ambulantes. Como eles tiram o sustento do dinheiro dos estrangeiros, entende-se até certo ponto a insistência, mas uma hora o sorriso amarelo que acompanha o "non, merci" começa a dar lugar às contrações faciais da impaciência. O pior é que eles são preparados para derrubar todo argumento contrário à compra, levando o turista a lançar mão de qualquer artifício para convencê-los a desistir. A moça que queria me vender colares, por exemplo, me fez revelar toda uma "tragédia pessoal":
Eu: Me desculpe, mas não tenho o hábito de usar colares, obrigado.
Ela: Mas então compre para a sua mãe.
Eu: Nunca conheci minha mãe.
Ela: Sua irmã vai gostar.
Eu: Não tenho irmãs.
Ela: E namorada?
Eu: Também não, não tenho nenhuma mulher na minha vida... (cara de coitado) Sou uma pessoa solitária...
E acelerei o passo antes que ela tivesse a brilhante ideia de me apresentar a filha. Era hora de tocar o barco de volta ao continente.

















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Para quem quiser um dia visitar a ilha, seguem algumas informações:
Descoberta em 1444 pelos portugueses, a ilha, que não chega a ter nem 1km de extensão, foi disputada por muitas coroas da Europa, passando ao longo do tempo pelas mãos de franceses, holandeses e ingleses (que travavam guerras e se revezavam constantemente no poder). A importância desse lugar para a história está ligada à memória do sofrimento causado pelos séculos de escravidão. Gorée serviu de ponto de partida para a "viagem sem regresso" de muitos homens e mulheres africanos capturados para trabalhar nas colônias europeias do Novo Mundo.
Ainda hoje há controvérsia sobre o número de escravos que partiram da ilha, mas existe uma estimativa do contingente total de toda a África. Foram cerca de 12 a 15 milhões de negros que deixaram o solo de onde nasceram para padecer nas plantações de açúcar, algodão, tabaco, café, e nas minas do outro lado do Atlântico. Não é difícil imaginar por que o continente que perdeu seus homens mais fortes e suas mulheres mais férteis reúne os países mais atrasados do mundo.
Quem precisa ver para crer pode ir muito além em Gorée. A ilha abriga uma casa que guarda melhor do que qualquer outra a lembrança dos dias de tortura, e onde a história pode de fato ser tocada. Construída em 1786, a Casa dos Escravos (Maison des Esclaves) era o lugar onde as pessoas capturadas ficavam enclausuradas em diferentes celas, de acordo com a idade e o sexo. Existia inclusive uma delas reservada às crianças. Caminhando pelo local, absorvendo o ar abafado e pisando no chão de areia, é impossível não imaginar o quanto devia ser sofrido ficar num daqueles buracos escuros e úmidos em pleno verão senegalês, comendo menos do que o mínimo necessário e sabendo que o futuro não haveria de ser melhor. E tudo aquilo era considerado normal há 200 anos.
Apesar de ser o principal local de visitação, a Casa dos Escravos não é o único museu da ilha. Existem ainda o Museu da Mulher, o Museu Marítimo e o Museu Histórico, todos a 500 francos (cerca de R$ 2). A companhia de um guia fica a critério do visitante. Certamente eles têm informações interessantes para enriquecer o passeio, mas eu só queria caminhar tranquilamente e tirar as fotos no meu próprio ritmo, sem ter que seguir alguém. Bastam de quatro a cinco horas para conhecer tudo e almoçar.
O único incoveniente da ilha é o mesmo que aflige todo ponto turístico de país subdesenvolvido: o assédio incansável dos vendedores ambulantes. Como eles tiram o sustento do dinheiro dos estrangeiros, entende-se até certo ponto a insistência, mas uma hora o sorriso amarelo que acompanha o "non, merci" começa a dar lugar às contrações faciais da impaciência. O pior é que eles são preparados para derrubar todo argumento contrário à compra, levando o turista a lançar mão de qualquer artifício para convencê-los a desistir. A moça que queria me vender colares, por exemplo, me fez revelar toda uma "tragédia pessoal":
Eu: Me desculpe, mas não tenho o hábito de usar colares, obrigado.
Ela: Mas então compre para a sua mãe.
Eu: Nunca conheci minha mãe.
Ela: Sua irmã vai gostar.
Eu: Não tenho irmãs.
Ela: E namorada?
Eu: Também não, não tenho nenhuma mulher na minha vida... (cara de coitado) Sou uma pessoa solitária...
E acelerei o passo antes que ela tivesse a brilhante ideia de me apresentar a filha. Era hora de tocar o barco de volta ao continente.
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Quem cantou a história da Ilha de Gorée foi Gilberto Gil, compositor (junto com Capinan) da música "La lune de Gorée". Fica então o vídeo com o ex-ministro tocando na ONU.
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Para quem quiser um dia visitar a ilha, seguem algumas informações:
. para se pegar o ferry, basta ir ao porto, não tem mistério nenhum
. o preço para estrangeiros até então era de 5.000 francos (cerca de 20 reais)
. há ainda que se pagar 500 francos como "entrada" na ilha
. a Casa dos Escravos não funciona durante as segundas-feiras e nas sextas abre somente às 15h
. os horários do ferry podem ser consultados aqui
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