domingo, 17 de janeiro de 2010

Domingo é dia de Maraca

Embora os senegaleses sejam apaixonados por futebol, existe um outro esporte cheio de particularidades capaz de dividir o espaço no coração dos torcedores: a luta. E em tempos de férias para a bola em Dakar, a válvula de escape para o excesso de testosterona na cidade são os combates de domingo à tarde, no mesmo horário do bom e velho futebol da Globo.

Tal qual um dia de Maraca, saí de casa depois do almoço para me juntar a outros quatro americanos e Samba, o já conhecido "diretor cultural" do curso de francês, que nos levaria para uma agradável tarde de disputas ferozes. Nunca fui fã de lutas, a não ser judô, que gosto muito de acompanhar em tempos de Olimpíadas, mas estando a muitos quilômetros de distância do Fluminense, meu pão e circo havia de ser remodelado.

A luta senegalesa pode ser considerada uma versão tribal e cheia de rituais da tradicional (e esquisita) luta greco-romana. Tudo teria começado como uma festa rítmica nos vilarejos após um bom dia de pesca. Os fortões de cada vilarejo se enfrentavam e as vitórias davam poder e respeito aos lutadores e seus povos.

Ao que parece, muito pouco deve ter mudado de lá para cá. A luta senegalesa continua sendo um meio de obter status na sociedade local, ou seja, dinheiro, mulheres e admiração. Também pode se dizer que a parte mística das disputas permaneceram intactas, afinal, eles são grandes e musculosos mas têm medo de espíritos. A preparação psicológica e, digamos assim, religiosa do combate é todo um ritual à parte, que inclui danças, banhos mil de líquidos esquisitos e até magia negra. Um dos lutadores chegou a colocar sapos em cada canto do ringue.

Já do lado de fora do "estádio", pode-se perceber que toda macumba é pouca. Os ambulantes vendem de tudo para você fazer a fezinha no seu fortão favorito. Era um tal de cabeça de jacaré para um lado, pata para o outro, e otras cositas más de fazer um fiscal do Ibama subir nas tamancas. Na bilheteria, confusão, policial exaltado e um pequeno amontoado de senegaleses mal encarados vestidos à moda rapper americano.

Chamar aquele lugar de estádio é exemplo de eufemismo para se colocar em livro escolar. O lugar nada mais é do que uma quadra de cimento dessas de futsal, com uma arena de areia no meio e pequenas arquibancadas em volta. Mas a animação do povo é à altura daquela esperada dos africanos. Existe toda uma divisão de torcidas, com camisas e faixas para os lutadores, parecia até Big Brother Brasil em dia de paredão.

Antes dos combates, que vão de quatro a cinco por dia, muito ritual e música percussiva (que não para sequer um minuto). É engraçado ver uns caras enormes dançando em grupo como se fossem membros de uma boy band, mas tudo faz parte de uma suposta intimidação ao oponente e um aquecimento para a disputa. Na verdade, é uma baita de uma confusão, tanta gente na quadra que fica até difícil de se concentrar no que está acontecendo dentro do ringue.

A luta senegalesa tem uma particularidade que a difere das outras lutas praticadas na África Ocitental, que é a permissão de socar o adversário. Isso dá um pouco mais de graça para quem gosta da coisa e eleva os níveis de euforia da massa. De fato, não é o tipo de lugar ao qual você vai levar sua namorada. Os torcedores se exaltam, a polícia está sempre com a mão coçando para bater e volta e meia tem alguém chorando ou desmaiando em algum canto.

Ganha quem derrubar o oponente ou empurrá-lo para fora do ringue. Ao final de cada luta o que não falta é espectador revoltado e querendo brigar. Eu tirei minhas fotos, fiz minhas filmagens e fui embora em meio a uma pancadaria entre um torcedor e alguns policiais. Nada que a gente já não tenha visto em estádios brasileiros. De consolo, fica o alívio de saber que pelo menos o domingo daqui não tem a dupla Galvão e Faustão.

A entrada custa 1.500 francos africanos (CFA), o equivalente a cerca de 6 reais (sem carteirinha de estudante!)

Os músicos tocam sentados em cadeiras de plástico, superprofissa

Quem resolve brigar fora do ringue acaba na mão desses aí, muito bem preparados para... bater!

Quero ver agora a família do Marcelo! Olha só, veio a mamãe, o papai, até a galera do futebol!

Os Backstreet Boys podiam aprender alguns passos com eles

Tem mulheres dançando também... Parece uma ala de escola de samba do Grupo de Acesso

Elas, aliás, vão às lutas e muito bem vestidas. Roupinha de domingo!

A luta fica nesse agarra-agarra um tempão, acho que até Bangu x Olaria é mais emocionante

Tino Marcos traz todas as notícias direto do campo de jogo

Esse daí tomou banho de tudo quanto é líquido...

...depois passou areia pelo corpo todo...

...e perdeu a luta. Acho que os deuses dele têm que malhar mais

Em outra luta, uma tentativa de soco para a capa de esportes da segunda

2 comentários:

  1. Sensacional. Quem diria que a velha e boa PORRADARIA é o ESPORTE NACIONAL no Sene-sene-sene-sene-Senegal (cantar em ritmo de axé, por favor).

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  2. Senti falta da vuvuzelas...

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