terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A enorme sombra

Existe uma grande história acontecendo no Senegal neste momento. Grande não, gigantesca. Para ser mais exato, de 50 metros de altura. É o que mede o megalômano monumento à Renaissance Africaine, encravado no alto de uma colina do subúrbio de Dakar. Prevista para ser inaugurada no dia 4 de abril, a estátua toda esculpida em bronze suscitou uma polêmica proporcional ao seu tamanho e, é claro, ao seu custo.

Quem passa pela Corniche próximo ao bairro Les Mamelles (o meu) não pode conter o soerguimento dos olhos em direção ao homem musculoso, sem camisa, segurando uma criança no braço esquerdo e carregando uma mulher no direito, todos de peito estufado e cabeça erguida em direção ao sol. O dono do brinquedo? O presidente Abdoulaye Wade, 83 anos, no poder desde abril de 2000, que vê no monumento a "abertura do continente ao resto do mundo. É uma força de propulsão e de atração na grandeza, na estabilidade e na perenidade da África".

Eis o motivo da polêmica que corre em todas as bocas de Dakar

Mas o que Wade atraiu foi justamente o oposto da estabilidade, e os motivos vão muito além do gosto duvidoso do projeto. Para começar, foram cerca de 21 milhões de euros que saíram dos cofres de um país que carece de infraestrutura básica. Os hospitais não podem atender à demanda por falta de recursos, a inflação salta aos olhos e os cortes de energia são frequentes. Isso para ficar no barato. A essa crítica, Wade responde que o monumento vai atrair tantos visitantes de todo o mundo que ele se pagará no futuro.

O que faltou dizer é que o presidente se diz mentor intelectual da obra, em referência a uma passagem de um livro de 20 anos atrás em que afirmou que, se fosse escultor, faria uma estátua com as três personagens tal qual ela foi de fato construída. Evocando para si a ideia, resolveu exigir 35% do dinheiro a ser ganho com as futuras visitas como direitos autorais. Imaginem a reação da população diante disso. Segundo Wade, a verba, no entanto, iria toda para a educação infantil, não só do Senegal como de toda África.

Só que a história não para por aí. Você pode pensar que, pelo menos, a obra gerou empregos e o dinheiro de certa forma está retornando para o bolso dos senegaleses. Pas du tout! Para complicar esse drama rocambolesco, o presidente contratou uma empresa norte-coreana (Mansudae Overseas Project Group of Companies) para ser a responsável pela empreitada. A embaixada americana ficou de cabelo em pé e a população idem. Afinal, por que recorrer a um grupo estrangeiro se a proposta do novo símbolo é representar a África livre da interferência externa? Sem falar dos artistas locais, que ficaram ressentidos pela desvalorização de seu trabalho.

Enfim, uma parceria polêmica e uma jogada por demais arriscada, para não dizer equivocada. Muitos estão se perguntando que caminho o Senegal está tomando, haja vista o tipo de companhia com a qual o senhor Wade está andando. Reconhecido pela solidez de sua democracia em um continente marcado por ditadores e regimes sanguinolentos, o país agora se vê refém do capricho de seu principal representante, no melhor estilo dos famigerados governantes autoritários africanos.

Ninguém reclamou da mulher atrás, sendo arrastada, pois o papel que a elas cabe na sociedade senegalesa é de segunda classe. Pelo menos das feministas Wade escapou

Resta o consolo de que pelo menos a imprensa e a população ainda podem criticar abertamente os deslizes do presidente, um luxo nesta região. A grande maioria dos muçulmanos não engoliu o monumento à nova África, afinal a religião islâmica condena toda e qualquer imagem à semelhança do homem. Durante discurso em sua defesa, Wade alegou que o símbolo não foi feito para adoração: "Um americano que vem do Texas, negro ou branco, não vai visitar a estátua para rezar, ele vai pela estética, porque acha que ela é bonita".

Mais à frente, no mesmo discurso, ele alarmou a Igreja Católica ao dizer que os cristãos rezam "por alguém que nem mesmo é Deus, é Jesus". O cardinal arcebispo de Dakar foi se queixar ao Vaticano e o presidente teve que se desculpar, afinal basta de adversários.

Nas ruas, os taxistas não escondem o descontentamento, todos ressaltando a proibição do islã, mas também cuspindo fogo contra o que classificam de desperdício de dinheiro. "Agora, estão dizendo que vão colocar aumentar o vestido da mulher", me informou um deles. "Olha só como está curto! Dá para ver a perna toda!". O arquiteto do projeto admite o problema, mas afirma que a decisão de cobrir as coxas é de Wade, que se diz um dos designers do monumento, embora este seja muito mais de inspiração soviética (leia-se feito pelas mãos dos norte-coreanos) do que propriamente africana.

Uma outra visão do monumento mostra as pernas que o esvoaçante vestido não cobre

Mas os taxistas fazem parte de uma classe menos favorecida e podem ser considerados, se assim for conveniente, membros da massa de manobra da oposição oportunista. Recorri então ao meu professor de francês, que apesar de tentar parecer imparcial, mostrou-se um fervoroso defensor da gestão Wade. "A estátua não me incomoda, ela não está lá para ser adorada. Você sabia que quando a Torre Eiffel estava sendo construída os franceses também a criticaram muito?".

O argumento é verdadeiro, mas peca pela simplicidade. Noves fora as enormes diferenças entre a França e o Senegal, a Torre foi construída a um custo relativamente baixo e estava prevista para ser um monumento temporário. Ademais, a escolha do projeto de Gustave Eiffel foi feita após concurso com mais de 100 designers.

Além da Torre Eiffel, o alvo da polêmica ainda foi comparado exaustivamente à Estátua da Liberdade. Os defensores do monumento, principalmente, gostam de afirmar que o trio africano de bronze é maior do que o ícone de Nova York. Enquanto a primeira tem 50 metros, a segunda mede 46m, se o pedestal não for levado em conta (com este, soma-se 93m). Alguns jornais de Dakar chegaram a afirmar que a Renaissance Africaine passaria a ser a maior estátua do mundo, ignorando um bocado de monumentos Ásia afora (para conferir a lista das mais altas, clique aqui), quando não contabilizando a altura da colina na conta da estátua.

Os visitantes poderão subir até a cabeça do patriarca e avistar toda a cidade de Dakar

Por falar em jornais, poucos devem estar se aproveitando tanto da polêmica quanto eles. Certamente, há muito não aparecia uma história tão boa e vendável como essa. Nesta terça-feira, praticamente todos os diários dedicaram páginas ao ataque ou à defesa da família gigante, afinal, é preciso manter o público interessado.

O L'Observateur abre espaço na página de opinião para um jornalista especialista em turismo que contesta o argumento turístico a favor da estátua. Para ele, o Senegal teria feito melhor se tivesse investido o dinheiro na infraestrutura do país e na promoção do turismo, que enfrenta muitas dificuldades. O Le Quotidien segue no mesmo tom, mas concentrando-se na figura de Wade, "um presidente que está sempre envolvido em polêmicas e criando problemas para o país" (e cita o quiproquó com a Igreja).

Já o Walfadjri traz uma entrevista com um respeitado filósofo de Benin chamado Paulin J. Hountondji, que vê como bem-vinda a ideia de um monumento que "materializa o novo ímpeto da África". Esse é o título do texo, mas lá no miolo você descobre que ele admite desconhecer os problemas de gestão e realização da obra. Também do lado de Wade está o Kotch, cuja página de opinião é toda preenchida pelo artigo de um sociólogo que defende o monumento como "símbolo de interculturalidade".

A polêmica não tem data para acabar, mas a festa de lançamento está marcada para o dia 4 de abril. Anunciada com toda pompa e orgulho, a presença do presidente Lula está confirmada. E é aí que entra o meu medo. Imaginem o nosso presidente vendo toda aquela festa, impressionado com o tamanho da estátua e embevecido pela suposta pujança dos países em desenvolvimento. O passo seguinte é perguntar à Dilma se não sobra um dinheiro do PAC para fazer uma estátua nunca antes vista nesse país.

Um símbolo da nova África? Só o tempo dirá se Wade estava certo



Para quem entende francês (com sotaque!), fica o vídeo em que o presidente defende a estátua e, sem querer, ofende os cristãos

2 comentários:

  1. Mon Dieu! Mas que polêmica!! Aqui no Brasil é capaz de SUMIR 21 milhões de euros e ninguém nem reparar...
    Enfin... ficou ótima a última foto!

    Beijos!

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  2. Gostei da parte dos 35% para o presidente, como coautor. Bela ideia. Lula vai pedir menos, tenho certeza.

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