Foi motivado por essa máquina de inquietações silenciosa e invisível que eu saí de casa na quarta-feira para ver o pôr-do-sol e acabei hospedado numa ilha sem eletricidade na costa do Senegal com uma prancha debaixo do braço e alguns novos amigos.
A digressão começou num poente e só foi terminar no seguinte, 24 horas depois. A ideia inicial era tomar uma cerveja admirando o ocaso na Ilha de N'Gor, um pequenino pedaço de terra a cinco minutos de barco da Praia de N'Gor. Saí do curso e fui para lá encontrar minhas duas amigas americanas, Laura, de quem já falei, e Kelly, uma havaiana que conheci através da primeira. Kelly também morou por seis meses no Senegal e, assim como Laura, voltou para fazer uma pesquisa sobre o turismo sexual no país, do qual ainda pretendo falar.
Esvaziados os copos e apagado o último raio de sol, a havaiana (quem mais seria?) disse que ia ficar na ilha para surfar no dia seguinte. A ideia era tentadora, embora eu estivesse de bermuda cargo e camisa polo. Fomos atrás do tal "surfcamp" que ela tinha visto, e o dinamarquês que dirigia o local falou que todos pretendiam surfar às 7h do dia seguinte. Sempre admirei essa disposição matinal dos surfistas, pois nunca fui capaz de incorporá-lo nos tempos em que me arriscava sobre uma prancha. Mas quando se está no Senegal, a ideia é justamente fazer o que você não faz em casa.
Às 20h, pegamos o barco de volta para o continente, um taxi até meu hotel, as roupas necessárias, o dinheiro, e tomamos o caminho de volta. Apesar do nome, o surfcamp não era um acampamento. Era simplesmente a maior propriedade da ilha, com quartos espalhados como se fossem chalés. E o dono daquilo tudo é o Akon, cantor de R&B e hip hop, de origem senegalesa, que faz sucesso no mundo todo. Enfim, lá estava eu na casa do Akon, numa ilha sem eletricidade, me preparando para madrugar e surfar o dia todo!
O clima era de comunidade, à qual logo nos integramos no jantar. E, por incrível que pareça, havia quatro brasileiros de São Paulo hospedados lá. Eles tinham entre 19 e 23 anos e estavam em Dakar apenas para surfar. Completavam o grupo dois franceses e um italiano, todos muito gente fina.
No dia seguinte, 7h da manhã de pé, prancha alugada em mãos e uma leve preocupação de voltar ao mar após um ano sem (tentar) surfar. Pior foi quando soube que o fundo era de coral e a profundidade era baixa, ou seja, qualquer queda mal calculada podia estragar tudo. Mas quem disse que quedas são calculadas? A havaiana estava tensa de verdade, no entanto ocorreu tudo bem. Apesar da minha imperícia, pude pegar duas ondas legais, nada mal. Kelly ficou mais na espuma, pouco para quem nasceu no Havaí e carrega o nome do maior surfista de todos os tempos.
Depois de 2 horas no mar e uma pausa para o almoço, liguei para meu professor e remarquei a aula para o dia seguinte. Tudo porque à tarde tinha mais! Pegamos um barco (!) para surfar do outro lado da ilha, uma dessas experiências que você não acredita que está vivenciando. Desembarcamos no meio do oceano (!!), onde a onda quebrava para a esquerda. A profundidade era ainda mais baixa, as ondas bem maiores e, como uma verdadeira cereja no bolo, uma imensa rocha emergia das profundezas exatamente em frente ao local onde se descia as montanhas d'água (!!!). Mas as ondas eram de fato perfeitas, gordas e longas como devem ser.
Kelly, apavorada com as séries maiores, ficou no fundo sentada na prancha o tempo todo. Após um bom tempo só "nas sobras", consegui pegar uma e fui parar longe. Fiquei feliz e empolgado, mas me faltou braço para vencer a arrebentação e voltar para mais. Já eram 17h e por mim estava mais do que suficiente. Remei em direção à praia e me dei por satisfeito. Kelly achou que eu tinha morrido no fundo de coral, mas um dos franceses com quem cruzei no caminho de volta à terra a tranquilizou.
De volta ao surfcamp, tomamos outra cerveja junto ao pôr-do-sol no maior clima de férias. Estávamos esgotados pelo esforço físico, mas era uma dor que dava prazer, sadomasoquismo à parte, uma sensação de ter sugado de dentro de nós mesmos todo o desejo, a curiosidade, a inquietação, assim como a tensão, a insegurança e o medo que tomam nosso corpo diante de uma nova boneca russa.
Para fechar, deixo um trecho do filme "Endless Summer", de 1966, em que dois americanos surfam pela primeira vez a onda que eu surfei em Dakar. O respectivo trecho vai de 2:25 até 6:46. É legal porque, além de o filme ser engraçado, tem uma imagem que mostra como é a ilha, bem próxima do continente.

Oh My God!!!
ResponderExcluirhahahahaha Adorei esse video! Adorei sua aventura tambem. =)
ResponderExcluirO filme é hilário! A parte de Gana é muuuito engraçada! Tem o filme todo no Youtube, vale a pena ver. Fiquei feliz quando ele falou que era difícil surfar pela primeira vez na África, e também quando ele disse "Robert, adivinha! Estamos na África!" hahahaha eu falava a mesma coisa: "Kelly, a gente está surfando na África!"
ResponderExcluirCaralho, brother!
ResponderExcluirQue show!
Será que dava para eu fazer uma ronda dessas também?
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E o problema não são as bonecas russas, são os russos.
Abraços!
E viva as matrioskas!
ResponderExcluirDuda
caraca, ta mandando hein cara. quem diria que tu ia tirar onda no senegal. mas ve se nao fica falando ingles ai hein, o foco é francês!
ResponderExcluirabracao e posta foto da galera!