quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Deve ser legal

Não poderia deixar de começar meu primeiro post em Dakar com a piada que mais ouvi nas últimas semanas. Sempre que contava a alguém sobre minha viagem, lá vinha o verso do Chico César na música Mama África: "Deve ser legal ser negão no Senegal". Era tudo que meu interlocutor sabia sobre esse estranho país francófono.

Confesso que quando apontei meu dedo no globo e resolvi fincar o alfinete também possuía um conhecimento muito restrito do que me esperava. Além do bom jogo de palavras, só me vinha à cabeça que o Senegal havia vencido a França na abertura da Copa do Mundo de 2002. E isso lá é motivo para se visitar um país? Uma rápida pesquisa no Google e aí sim, descubro que o Senegal é uma sólida democracia, Dakar se localiza às margens do Oceano Atlântico, o clima é parecido com o do Rio, o visto é fácil de se conseguir e os únicos requisitos são vacina contra febre amarela e um bocado de coragem. Passagem comprada.

Minha odisseia para chegar até lá, contudo, não foi tão simples. Passaram-se 30 horas desde o momento em que coloquei os pés fora de casa até eles tocarem o chão senegalês. Das 30, foram 16 e meia no ar, 13 em terra e acho que nem quatro dormindo. Três aviões, dois carros e um ônibus. Cinco aeroportos em quatro cidades. Estando Homero vivo e com acesso à internet, o personagem não se chamaria mais Ulisses.

Apesar do título do post tratar-se de uma hipótese, uma coisa posso afirmar: não é legal chegar ao Senegal às 3 horas da manhã. Como não tive alternativa, desembarquei no desconhecido em plena escuridão e aturei pessoas estranhas falando coisas esquisitas. Queriam empurrar meu carrinho de bagagem, mas o João sem braço eram eles e eu deixei claro que conseguia fazer o "abissal" esforço de levar as malas sozinho.

Minha sorte foi ter contratado um transfer para o meu hotel. O motorista tentava afastar os oportunistas como quem abana moscas da comida, mas de pouco adiantou e eles seguiram com a mão no guidão até o estacionamento. Quando chegamos ao taxi do meu primeiro amigo senegalês, me perguntei se aquilo desmontaria assim que a mala entrasse ou se seria na hora que eu batesse a porta. Os carrapatos então estenderam a famosa mão de palma virada para cima e eu disse que não daria dinheiro (já falei o mesmo para um assaltante no Rio, por que não o faria para um pedinte?). Quem acabou dando um trocado foi o motorista. Fiquei com pena. Lá se foram as economias para comprar um carro novo...

Livres da dupla, seguimos caminho em direção ao hotel. Noves fora as dificuldade de comunicação entre um senegalês que falava um francês incompreensível e um brasileiro que tampouco ajudava, o passeio ia bem até entrar numa rua de terra. Medo. Tensão. Aonde estou indo? Um pouco mais à frente e o hotel surgiu, pequeno por fora, aconchegante e agradável por dentro. Dois euros de presente para Pap, o alegre e fagueiro motorista, e uma longa e merecida noite de descanso para mim, que em 3 semanas talvez tenha coragem de responder à dúvida existencial do Chico César.

4 comentários:

  1. Feliz, meu caro, estou com um pouco de inveja, de vós-me-cê, se é que vós-me-cê me permitir a inveja. Pela coragem (da viagem) e pelo texto incrível (o momento "Ulisses" é BEM bom). Saiba que vou lhe acompanhar por aqui e pelos papos internéticos.

    Abrazz - e boa sorte.

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  2. Caríssimo amigo, estou realmente lisonjeado de receber elogios de um baita escritor e blogueiro como você. Inveja tenho eu dos seus livros publicados! Fico feliz de saber que vai passar por aqui amiúde. Forte abraço

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  3. Olhaí, olhaí, não precisa tanto. Não sou nem metade disso aí que você falou. Mas uma curiosidade: o primeiro livreto se chama "A primeira pessoa". Saca só: http://www.editoramultifoco.com.br/catalogo2.asp?lv=29

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  4. Hahahahaha Tá vendo como você é uma inspiração? Só não me peça direitos autorais que eu estarei perdido!

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