Mas, verdade seja dita, fora da sala de aula não sou nada mais, nada menos, do que um simples turista. E apesar de um turista enrustido, faço tudo direitinho como manda o manual. Tiro fotos da população local, compro souvenirs e, é claro, visito os pontos turísticos. O plural, no caso de Dakar, seja quase a ser um exagero (se não uma condescendência), pois a cidade não tem lá grandes atrações para gringo ver. Talvez por isso o presidente tenha resolvido fazer a famigerada estátua de 50 metros de altura.
Mas enquanto o monumento não é aberto à visitação, o principal local de interesse turístico do país é a Ilha de Gorée. Distante apenas 20 minutos de Dakar via ferry, ela é destino obrigatório para quem vai ao Senegal pela primeira vez. Em 1978, foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco e, não à toa, é o lugar mais bonito e agradável da capital.
A ilha é uma mistura de Paraty com Havana. As casas coloridas, o som de passos rasgando o silêncio e o caminhar lento de quem leva a vida algumas marchas abaixo da nossa lembram a cidade do sul fluminense, enquanto os prédios com arcos e o ar de decadência que emana das paredes descascadas remetem à capital cubana. No entanto, o simpático cenário pitoresco foi outrora testemunha de um dos capítulos mais vergonhosos da humanidade.
Descoberta em 1444 pelos portugueses, a ilha, que não chega a ter nem 1km de extensão, foi disputada por muitas coroas da Europa, passando ao longo do tempo pelas mãos de franceses, holandeses e ingleses (que travavam guerras e se revezavam constantemente no poder). A importância desse lugar para a história está ligada à memória do sofrimento causado pelos séculos de escravidão. Gorée serviu de ponto de partida para a "viagem sem regresso" de muitos homens e mulheres africanos capturados para trabalhar nas colônias europeias do Novo Mundo.
Ainda hoje há controvérsia sobre o número de escravos que partiram da ilha, mas existe uma estimativa do contingente total de toda a África. Foram cerca de 12 a 15 milhões de negros que deixaram o solo de onde nasceram para padecer nas plantações de açúcar, algodão, tabaco, café, e nas minas do outro lado do Atlântico. Não é difícil imaginar por que o continente que perdeu seus homens mais fortes e suas mulheres mais férteis reúne os países mais atrasados do mundo.
Quem precisa ver para crer pode ir muito além em Gorée. A ilha abriga uma casa que guarda melhor do que qualquer outra a lembrança dos dias de tortura, e onde a história pode de fato ser tocada. Construída em 1786, a Casa dos Escravos (Maison des Esclaves) era o lugar onde as pessoas capturadas ficavam enclausuradas em diferentes celas, de acordo com a idade e o sexo. Existia inclusive uma delas reservada às crianças. Caminhando pelo local, absorvendo o ar abafado e pisando no chão de areia, é impossível não imaginar o quanto devia ser sofrido ficar num daqueles buracos escuros e úmidos em pleno verão senegalês, comendo menos do que o mínimo necessário e sabendo que o futuro não haveria de ser melhor. E tudo aquilo era considerado normal há 200 anos.
Em cima, a casa dos comerciantes; embaixo, as celas dos escravos. Ao fundo, A PORTA
A porta pela qual eles passavam rumo às Américas
Até hoje o cenário é meio sombrio...
Apesar de ser o principal local de visitação, a Casa dos Escravos não é o único museu da ilha. Existem ainda o Museu da Mulher, o Museu Marítimo e o Museu Histórico, todos a 500 francos (cerca de R$ 2). A companhia de um guia fica a critério do visitante. Certamente eles têm informações interessantes para enriquecer o passeio, mas eu só queria caminhar tranquilamente e tirar as fotos no meu próprio ritmo, sem ter que seguir alguém. Bastam de quatro a cinco horas para conhecer tudo e almoçar.
O único incoveniente da ilha é o mesmo que aflige todo ponto turístico de país subdesenvolvido: o assédio incansável dos vendedores ambulantes. Como eles tiram o sustento do dinheiro dos estrangeiros, entende-se até certo ponto a insistência, mas uma hora o sorriso amarelo que acompanha o "non, merci" começa a dar lugar às contrações faciais da impaciência. O pior é que eles são preparados para derrubar todo argumento contrário à compra, levando o turista a lançar mão de qualquer artifício para convencê-los a desistir. A moça que queria me vender colares, por exemplo, me fez revelar toda uma "tragédia pessoal":
Eu: Me desculpe, mas não tenho o hábito de usar colares, obrigado.
Ela: Mas então compre para a sua mãe.
Eu: Nunca conheci minha mãe.
Ela: Sua irmã vai gostar.
Eu: Não tenho irmãs.
Ela: E namorada?
Eu: Também não, não tenho nenhuma mulher na minha vida... (cara de coitado) Sou uma pessoa solitária...
E acelerei o passo antes que ela tivesse a brilhante ideia de me apresentar a filha. Era hora de tocar o barco de volta ao continente.

















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Para quem quiser um dia visitar a ilha, seguem algumas informações:
Descoberta em 1444 pelos portugueses, a ilha, que não chega a ter nem 1km de extensão, foi disputada por muitas coroas da Europa, passando ao longo do tempo pelas mãos de franceses, holandeses e ingleses (que travavam guerras e se revezavam constantemente no poder). A importância desse lugar para a história está ligada à memória do sofrimento causado pelos séculos de escravidão. Gorée serviu de ponto de partida para a "viagem sem regresso" de muitos homens e mulheres africanos capturados para trabalhar nas colônias europeias do Novo Mundo.
Ainda hoje há controvérsia sobre o número de escravos que partiram da ilha, mas existe uma estimativa do contingente total de toda a África. Foram cerca de 12 a 15 milhões de negros que deixaram o solo de onde nasceram para padecer nas plantações de açúcar, algodão, tabaco, café, e nas minas do outro lado do Atlântico. Não é difícil imaginar por que o continente que perdeu seus homens mais fortes e suas mulheres mais férteis reúne os países mais atrasados do mundo.
Quem precisa ver para crer pode ir muito além em Gorée. A ilha abriga uma casa que guarda melhor do que qualquer outra a lembrança dos dias de tortura, e onde a história pode de fato ser tocada. Construída em 1786, a Casa dos Escravos (Maison des Esclaves) era o lugar onde as pessoas capturadas ficavam enclausuradas em diferentes celas, de acordo com a idade e o sexo. Existia inclusive uma delas reservada às crianças. Caminhando pelo local, absorvendo o ar abafado e pisando no chão de areia, é impossível não imaginar o quanto devia ser sofrido ficar num daqueles buracos escuros e úmidos em pleno verão senegalês, comendo menos do que o mínimo necessário e sabendo que o futuro não haveria de ser melhor. E tudo aquilo era considerado normal há 200 anos.
Apesar de ser o principal local de visitação, a Casa dos Escravos não é o único museu da ilha. Existem ainda o Museu da Mulher, o Museu Marítimo e o Museu Histórico, todos a 500 francos (cerca de R$ 2). A companhia de um guia fica a critério do visitante. Certamente eles têm informações interessantes para enriquecer o passeio, mas eu só queria caminhar tranquilamente e tirar as fotos no meu próprio ritmo, sem ter que seguir alguém. Bastam de quatro a cinco horas para conhecer tudo e almoçar.
O único incoveniente da ilha é o mesmo que aflige todo ponto turístico de país subdesenvolvido: o assédio incansável dos vendedores ambulantes. Como eles tiram o sustento do dinheiro dos estrangeiros, entende-se até certo ponto a insistência, mas uma hora o sorriso amarelo que acompanha o "non, merci" começa a dar lugar às contrações faciais da impaciência. O pior é que eles são preparados para derrubar todo argumento contrário à compra, levando o turista a lançar mão de qualquer artifício para convencê-los a desistir. A moça que queria me vender colares, por exemplo, me fez revelar toda uma "tragédia pessoal":
Eu: Me desculpe, mas não tenho o hábito de usar colares, obrigado.
Ela: Mas então compre para a sua mãe.
Eu: Nunca conheci minha mãe.
Ela: Sua irmã vai gostar.
Eu: Não tenho irmãs.
Ela: E namorada?
Eu: Também não, não tenho nenhuma mulher na minha vida... (cara de coitado) Sou uma pessoa solitária...
E acelerei o passo antes que ela tivesse a brilhante ideia de me apresentar a filha. Era hora de tocar o barco de volta ao continente.
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Quem cantou a história da Ilha de Gorée foi Gilberto Gil, compositor (junto com Capinan) da música "La lune de Gorée". Fica então o vídeo com o ex-ministro tocando na ONU.
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Para quem quiser um dia visitar a ilha, seguem algumas informações:
. para se pegar o ferry, basta ir ao porto, não tem mistério nenhum
. o preço para estrangeiros até então era de 5.000 francos (cerca de 20 reais)
. há ainda que se pagar 500 francos como "entrada" na ilha
. a Casa dos Escravos não funciona durante as segundas-feiras e nas sextas abre somente às 15h
. os horários do ferry podem ser consultados aqui

Belíssimas fotos! Tá de dar orgulho.
ResponderExcluirDuda
" Nunca conheci minha mãe"? Entendi as razões. Será que pode-se ler nas entrelinhas...e compreender que um homem nunca vai conhecer uma mulher totalmente?
ResponderExcluirTô achando o máximo essas túnicas compridas. Adorei a lilás no menininho. Será que pode haver uma concessão turística e rolar uma comprinha?
Excelente contextualização!!...o fecho com o Gilberto Gil está de arrepiar!!
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