Por outro lado, posso dizer que tenho uma vasta experiência quando o assunto é táxi. Embora não seja o maior fã desse tipo de transporte, sei que para sair de um ponto A e ir até um ponto B não existe melhor opção. Os ônibus são cheios de regras diferentes em cada lugar e provavelmente vão te largar no ponto C. E aí, meu amigo, não basta saber o alfabeto para encontrar seu desejado ponto B, a questão não é ortográfica, mas geográfica.
Estar perdido em uma cidade que você não conhece é normal, mas nos países subdesenvolvidos nem sempre se pode ser transparente quanto a isso. Exibir uma postura de quem está no controle da situação é uma arte quando você não tem a mínima ideia de onde está. Óculos escuros, cara de mau, um bom senso de direção e, claro, um pouco de sorte, sempre ajudam. Mas se você nunca foi bom em disfarces, não está em dia com os santos e costuma abrir mapas como um pré-adolescente diante do pôster central da Playboy, vá de táxi.
O problema é que às vezes Murphy pega uma caroninha com você sem pedir licença (e muito menos dividir o preço da corrida). Nos Estados Unidos, por exemplo, meu taxista enfiou o carro no canteiro central de uma avenida e custou para conseguir voltar à pista. Foi um tal de faísca subindo pela janela, cheiro de borracha queimada e um baita susto. Já na Argentina, o motorista nem teve culpa, coitado, bateram nele. Mas não seria eu quem explicaria isso à dupla furiosa, de chave inglesa na mão, que me fez bater em retirada (e eu ainda deixei o dinheiro no banco!). Na Bolívia, o táxi é um meio de transporte coletivo... as pessoas vão entrando e você não pode falar nada. Mas nem tudo é desgraça. No Peru, peguei um simpático taxista que falava paulistês com sotaque espanhol. O cara tinha morado 8 anos em São Paulo e conversava em bom português, entre um "mano" e outro.
Mais difícil do que encontrar uma figura dessas por aí é negociar o preço das corridas em lugares onde o taxímetro é um luxo desnecessário. A discussão é um verdadeiro leilão às avessas, ganha a menor oferta. Os táxis do Senegal utilizavam contadores em um tempo já esquecido. Diante do aumento da concorrência, um dia alguém resolveu fazer uma corrida "por fora", deu um desconto para um cliente, e aí começou toda a história da barganha. Pior para os turistas e os maus negociadores. Quando você se encaixa nos dois grupos então...
Em todo lugar do mundo, tem sempre um bocado de taxistas prontos para se aproveitar de viajantes desavisados. No início, é difícil saber o valor mais justo, pois você não tem nenhuma referência, mas quando você começa a dominar o mapa da cidade, o custo de vida local e a lógica por trás das negociações, os preços podem cair violentamente. Porém, às vezes, esse momento só chega quando você já está de partida. É um jogo cruel.
Levei uma semana e meia para "dar o troco" nos taxistas de Dakar. Negociar é uma habilidade para poucos e a paciência é uma virtude necessária (e da qual sou carente). Mas quem não nasce com o dom, pode observar e aprender. O truque no Senegal é manter-se firme, falar que você faz todo dia o tal trajeto e paga sempre o mesmo preço e, o mais importante, ir embora diante da resistência do taxista. É o famoso blefe, ajudando pessoas com cartas ruins há centenas de anos. Chega a ser engraçado, o taxista engata a primeira, anda dois metros e buzina para você voltar. Com cara de vencido, ele aceita seu preço (que ainda assim deve ser mais alto do que o pago pelo local).
Às vezes, o cara vai embora mesmo, e você tem que recomeçar tudo de novo. Hoje, só consegui pegar um táxi de volta para casa após seis tentativas frustradas. O sétimo foi o que deu o lance inicial mais alto e o que acabou cedendo à minha oferta (três vezes mais baixa). Vencida a negociação, vem o lado bom de não haver taxímetro: o motorista não pode te enrolar fazendo um caminho mais longo. Se optar por isso, será pior para ele. E para Murphy, que ultimamente tem andado bravo comigo aqui em Dakar. O que posso fazer?, cansei de dar carona. Agora, quando ele se aproxima esbaforido, eu bato a porta e grito da janela: "Desculpa, estou indo para o outro lado!"

Acho que você deveria encarar a van. Isso sim é mergulho antropológico.
ResponderExcluir