Até hoje, a única vez em que a bandeira senegalesa tremulou numa cerimônia de entrega de medalhas foi em Seul 1988, quando Amadou Dia Ba ganhou a prata na prova dos 400 metros com barreiras. Dez anos depois, em Pequim, apenas 12 esportistas representaram o país, sendo somente dois no atletismo, quando a média anterior do esporte era de dez.
Amadou Dia Ba (à direita) perdeu apenas para o americano Andre PhillipsAgora, vejam só que ironia. O presidente da Federação Internacional de Atletismo é um... senegalês! Lamine Diack, um ex-jogador de futebol dos anos 50 e também ex-atleta de salto em distância, assumiu o cargo em 1999 e está lá até hoje (é ainda digno de nota dizer que ele é pai de 15 filhos). Depois da participação catastrófica do Senegal nas Olimpíadas de Pequim, Diack e o ministro dos Esportes e Lazer admitiram preocupação com a situação esportiva do país e organizaram um encontro para discutir as medidas que poderiam ser tomadas para mudar esse quadro.
E por que esse preâmbulo todo? Para dizer que aparentemente a situação é outra. Acho difícil que alguma coisa tenha realmente mudado de 2008 para cá, mas o que vi nas ruas foram muitos senegaleses correndo com trajes esportivos como verdadeiros atletas de olho em 2012. Ok, posso estar exagerando um pouco, afinal a maioria deles não tinha nem tênis adequados, porém a falta de um Asics era compensada com uma disposição impressionante.
Sei que existe um abismo enorme entre pessoas correndo na orla e atletas ganhando medalhas, mas me pareceu um cenário saudável e promissor, e isso me motivou a fazer igual. Mesmo de sapatênis, no melhor estilo "Mizuno é para os fracos", me juntei à sociedade anônima de atletas de rua de Dakar.
O melhor da história toda é que a "pista" onde os senegaleses se exercitam é o lugar mais bonito da cidade para mim até agora. Na saída do hotel, sempre pego essa bela avenida chamada Corniche, com vista para o Oceano Atlântico, como se fosse uma Avenida Niemeyer, só que mais alta e não tão próxima da água. Um lugar maravilhoso para se correr, distante do caos do centro e com um pôr-do-sol no mar de tirar o fôlego (ou melhor, de dar mais fôlego!), que infelizmente não temos no Brasil, exceto em Fernando de Noronha.
O interessante é que a Corniche tem poucas retas planas, as longas subidas e descidas e as curvas sinuosas predominam, variando a intensidade do treino como se fosse uma aula de running na academia. Dei minha corrida e voltei para o hotel feliz por saber que, um pé após o outro, a gente acaba descobrindo que até Dakar tem lá seus encantos.

Irado!
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