terça-feira, 3 de março de 2009

Ser brasileiro é... ser detido na imigraçao

Eu nao consegui ficar tranquilo nos dias que antecederam minha viagem e aproveitar a sensaçao de estar próximo de ir à Europa pela primeira vez. Eu tinha várias coisas para resolver antes de embarcar, mas esses problemas ficavam pequenos quando eu parava para pensar nos pit bulls da imigraçao espanhola. Com tantas notícias recentes de brasileiros barrados no aeroporto de Barajas, eu perdia o humor só de pensar que tudo poderia ser em vao apenas porque o mocinho da polícia poderia nao ir com a minha cara. Cara de árabe, para piorar.

Por contraditório que possa parecer, ao chegar na fila da imigraçao eu estava tranquilo. Os caras na cabine nem tinham cara de mau, eu estava com tudo certinho, ia ser mamao com açucar. Até ele perguntar quantos euros eu estava levando, a minha grande preocupaçao desde o Brasil! E nao é que eu entendi quantos anos eu tinha? Ele tomou um susto ao descobrir que eu tinha 25 euros! Eu ate corrigi depois quando percebi o mal-entendido, mas brasileiros nao podem errar. Lá fui eu para a salinha.

Tudo bem, eu estava com tudo certo e, vamos cobinar né, nem era minha primeira vez numa sala de imigraçao. Eu ja tinha sido jogado com árabes e mexicanos na berlinda da imigraçao americana em Los Angeles. E isso tinha sido apenas 4 meses depois do 11 de Setembro. Espanha? Piece of cake.

Conheci a famigerada salinha da qual ouvi os deportados reclamarem tanto. Lembrei dos relatos de alguns brasileiros que tinham ficado dias e dias trancafiados numa sala escura, úmida, sem comida e informaçoes. O negócio nao é nenhum Salao Oval, mas era uma sala de aeroporto como qualquer uma deve ser no mundo. Estávamos eu, um outro brasileiro... uma menina que era... brasileira, uma mulher, deixa eu ver se me lembro... ah! brasileira e uma terceira moça o que? tcham tcham tcham tcham! Brasileira! Oh pátria amada idolatrada salve, salve!! Rapaz, se você é jovem, mas nao é o Ronaldinho, as chances de fazer um tour pela salinha sao pule de dez!

Nao tinha mais nenhuma nacionalidade com nosotros. Mas convenhamos, tirando o garoto, as três mocinhas estavam ali provavelmente para 'ganhar a vida' se é que vocês me entendem. Uma delas se vestiu com uma camisa que nao chegava nem ao umbigo! Barriguinha de fora nao dá né...
A outra eu cheguei a ouvir conversando com a polícia, falando que estava ali para ficar 3 meses, era solteira e tinha um filho que deixou com a mae. Um beijo, me liga!

Aí o cara grita de fora da salinha: 'Diogo!' e eu ali só imaginando as mocinhas entrando no aviao de volta. O espanhol foi obrigado a gritar de novo 'Diogo!' Ferrou, irritei o cara né.

- Quantos euros você tem?
- 1.400 (sem titubear)
- Trouxe cartao de crédito?
- Sim
- Mostra
(mostrei dois cartoes e ainda o visa travel money. em nenhum momento mostrei meus 900 euros em cash)
- O que você está fazendo na Espanha?
- Turismo
- Vai ficar quanto tempo?
- Agora, um dia. Amanha vou para o Marrocos.
- Tem a passagem aí?
- Sim
(mostrei)
- O que você vai fazer no Marrocos???
- Turismo
(me olha estranho)
- Onde você trabalha no Brasil?
- Sou jornalista, trabalho na Globo.
- O que você vai fazer no Marrocos???
- Turismo (como se ele nao tivesse me perguntado isso ha 20 segundos)
- Cadê sua carteira de jornalista
(bem, eu 'só' tinha carteira de trabalho, contra-cheque e minhas férias assinadas. mostro meu contra-cheque explicando o que é)
-Guarda isso. Pode seguir viagem.

Saí da salinha como se fosse um brasileiro melhor do que os outros. É isso que eles fazem a gente sentir! hahahaha

Eu estava oficialmente na Europa! Peguei o metrô que existe DENTRO DO AEROPORTO e após muitas trocas de linhas sem errar eu estava no Centro de Madri, exatamente na rua do meu albergue. Quando eu saí da estaçao e me vi numa das principais praças da cidade (Puerta del Sol), nao conseguia esconder o sorriso. Fiquei com aquela expressao grudada no rosto e pensando 'Caraca, nao é que eu to na Europa?' Foi esse o momento em que eu superei todos as preocupaçoes e a ficha caiu. Estava chuviscando, mas aquilo nao diminuía a alegria do momento.

Achei a entrada e tomei um pequeno susto, era uma porta velha num prédio nao menos antigo. Hesitei por um momento. Será que é esse número mesmo? Era. Abri e a situaçao piorou, a porta dava para um corredor sujo, escuro e cheio de entulho de alguma obra. Só dava para ver uma longa escada no fim e um papel grudado na parede: 'Hostel One Centro, é só subir até o terceiro andar. Vamos, você já está chegando'. Bem, se os caras tiveram a preocupaçao de me motivar é porque a escada nao era brincadeira nao (ou o próprio albergue, sei lá). Confesso que se nao tivesse já visto fotos pela internet estaria apavorado, mas fiquei tranquilo e no final das contas era exatamente o que eu conferira. Peguei meu quarto, chequei os emails e caí nas ruas molhadas de Madri.

Nenhum comentário:

Postar um comentário